"Não queremos virar a Venezuela", dizem cartazes levados por manifestantes reunidos nos últimos meses, na Praça de Maio e em outros pontos da capital argentina. Os panelaços em Buenos Aires, comandados pelas classes média e média alta, são uma demonstração de que os opositores encontraram um novo e incômodo rótulo para colar na presidente argentina, Cristina Kirchner. As diferenças entre os dois países são grandes, mas medidas recentes trouxeram ecos de Caracas ao clima argentino. "[Exceto Chávez], a única outra personalidade que reúne em termos populares uma forte presença midiática e que prega uma esquerda para não dizer populista, popular, anti-imperalista é Cristina Kirchner", disse recentemente o jornalista e escritor da "New Yorker" Jon Lee Anderson, um observador das duas últimas décadas políticas na região.


A Argentina possui mais vigor institucional do que seu aliado ao norte, um "regime híbrido" com desmontagem paulatina do sistema de pesos e contrapesos do sistema democrático. E até agora, apesar dos rumores, Cristina não fez nenhum movimento para mudar a Constituição e conseguir direito a tentar terceiro mandato, como fez Chávez. Mas, na Argentina, os jornais opositores são alvo de pressões intensas por parte do kirchnerismo, e há leis que os prejudicam aprovadas no Congresso, como a que estatiza o papel-jornal e a que veta que um grupo de mídia atue em várias frentes. Na Venezuela, o cenário é o mesmo, mas há agravantes: o governo não renovou a concessão da então maior TV do país, a RCTV, em 2007, lançando um manto de temor sobre os demais grupos. Há casos de jornalistas e editores detidos por reportagens. As últimas medidas do governo argentino com relação à compra de dólares e à exigência de explicações para quem quer viajar aumentaram a sensação de parte da sociedade de que o país pode seguir o caminho da nação comandada por Chávez. Na Venezuela, a compra de dólares é muito mais controlada, havendo mais de uma cotação da moeda norte-americana, dependendo do comprador e da intenção. Os argentinos se preocupam com o fato de algumas decisões de Cristina apontarem para o mesmo rumo. A expropriação da petrolífera YPF, quebrando contratos com a Repsol, causou forte repercussão negativa entre os que pensam que o governo deveria zelar pela reputação do país internacionalmente. Além disso, a promiscuidade entre Judiciário e governo se faz mais evidente nas tentativas dos kirchneristas de proteger o vice, Amado Boudou, das acusações de tráfico de influência. Tanto o juiz como o promotor que cuidavam do caso foram substituídos. Também aponta uma semelhança com o sistema venezuelano a crescente intervenção do Estado na economia, o que os kirchneristas chamam de "modelo", que caracteriza sua gestão

Fonte: Folha de SP