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quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Depois da exumação, o próximo passo será reconstituir o rosto e a voz de Dom Pedro I

By on 20.2.13

Segundo cientistas, será possível em alguns meses até ‘recriar’ Dom Pedro como holograma.

A pesquisa desenvolvida pela historiadora e arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel abre possibilidades para que sejam recriadas as fisionomias, o modo de andar e até mesmo as vozes de Dom Pedro I, Dona Leopoldina e Dona Amélia.
 
Também será feito o sequenciamento genético das figuras históricas, na busca por indícios de problemas médicos que possam ter marcado suas vidas - a epilepsia do imperador, por exemplo, teria fundo congênito? Os futuros trabalhos, que unirão arqueologia, preservação cultural e medicina, são inéditos no País.
Por enquanto, os envolvidos nas pesquisas adotam discurso cauteloso. Entretanto, não deve estar longe o dia em que um holograma de Dom Pedro I com altura, forma e voz iguais às do monarca português que proclamou a Independência em 1822 poderá receber os visitantes do Museu do Ipiranga, por exemplo.

"Qualquer coisa nesse sentido precisa antes ser conversada com a família imperial. Precisamos respeitar. Eles têm uma inegável imagem histórica, mas o estudo traz muitas possibilidades e muita gente vai ter ideias sobre isso", diz o médico radiologista Edson Amaro Júnior, coordenador de neuroimagem funcional da Faculdade de Medicina da USP. "Só é preciso ficar claro que não estamos vendendo suvenir de Dom Pedro."



 Recriação: Existe também a possibilidade de simular os movimentos dos personagens


Na etapa já desenvolvida, as alturas das três figuras históricas já foram estimadas. É possível utilizar o mesmo princípio para, em um desdobramento mais minucioso e demorado, simular estatisticamente como seriam seus rostos, por exemplo. É exatamente a mesma técnica utilizada há pouco na Inglaterra, para recriar a face do rei Ricardo III.


Para isso, será preciso tabular os dados conhecidos de cada osso e cruzar com a média da população humana, a fim de conseguir as estimativas de gordura e pele para cada segmento.


"É algo que levará muitos meses e envolverá vários especialistas", explica Amaro. "Temos o componente estatístico, quando consideramos as médias da população, e o determinístico, ao avaliarmos as dimensões da própria ossada."


Procedimento semelhante também deve possibilitar a simulação dos movimentos desses personagens e até mesmo a recriação do timbre da voz.


"Para isso, precisamos reconstruir os seios da face, a laringe, a faringe, a amplitude do pulmão e a caixa torácica. Tudo isso interfere na voz de uma pessoa", explica.


DNA

Outro desdobramento importante deve ser a análise do DNA das figuras históricas. Foram colhidas amostras dos três personagens - embora, pelo fato de o material ter mais de um século, não há a certeza de que algo poderá ser estudado.


"Os resultados devem sair ainda neste ano", afirma o médico patologista Luiz Fernando Ferraz da Silva, da Faculdade de Medicina da USP.


"Estamos firmando um contrato com um instituto americano. O sequenciamento leva de 2 a 3 meses. A análise, outros 4 meses." Os exames de DNA nos três personagens, informa o professor, custarão entre US$ 30 mil e US$ 40 mil.


Com o mapeamento dos genes da família imperial, a equipe médica espera conseguir esmiuçar mais a fundo algumas doenças relacionadas a mutações específicas. "Um exemplo é o caso da epilepsia de Dom Pedro. Em alguns casos, essa doença pode ter relação com alterações genéticas", diz Ferraz da Silva.

 


 
 
Restos mortais de Dom Pedro I, o primeiro imperador brasileiro, e de duas imperatrizes foram exumados para estudos; corpos estavam no Parque da Independência, na zona sul da capital, desde 1972.
Pela primeira vez em quase 180 anos, os restos mortais de Dom Pedro I, o primeiro imperador brasileiro, foram exumados para estudos.
Também foram abertas as urnas funerárias das duas mulheres de Dom Pedro I: as imperatrizes Dona Leopoldina e Dona Amélia. Os corpos estavam no Parque da Independência, na zona sul da capital, desde 1972.

Os exames - realizados em sigilo entre fevereiro e setembro de 2012 pela historiadora e arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, com o apoio da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) - revelam fatos desconhecidos sobre a família imperial brasileira, agora comprovados pela ciência, e compõem um retrato jamais visto dos personagens históricos.

A arqueóloga e historiadora Valdirene do Carmo Ambiel  e o crânio de D. pedro I
Agora se sabe que o imperador tinha quatro costelas fraturadas do lado esquerdo, o que praticamente inutilizou um de seus pulmões - fato que pode ter agravado a tuberculose que o matou, aos 36 anos, em 1834.
Os ferimentos constatados foram resultado de dois acidentes a cavalo (queda e quebra de carruagem), ambos no Rio, em 1823 e em 1829.

Ao realizar o inventário do caixão de Dom Pedro, nova surpresa: não havia nenhuma comenda ou insígnia brasileira entre as cinco medalhas encontradas em seu esqueleto.

O primeiro imperador do Brasil foi enterrado como general português, vestido com botas de cavalaria, medalha que reproduzia a constituição de Portugal e galões com formato da coroa do país ibérico.
A única referência ao período em que governou o Brasil está na tampa de chumbo de um de seus caixões (ele estava dentro de três urnas), na qual foi gravado "Primeiro Imperador do Brasil" ao lado de "Rei de Portugal e Algarves".

Ao longo de três madrugadas, os restos mortais da família imperial brasileira foram transportados da cripta imperial, no Parque da Independência, à Faculdade de Medicina da USP, na Avenida Doutor Arnaldo, em Cerqueira César, onde passaram por sessões de até cinco horas de tomografias e ressonância magnética.

Dom Pedro I, o primeiro imperador brasileiro, e suas duas mulheres, as imperatrizes Dona Leopoldina e Dona Amélia
Pela primeira vez, o maior complexo hospitalar do País foi utilizado para pesquisas em personagens históricos - na prática, Dom Pedro I, Dona Leopoldina e Dona Amélia foram transformados em ilustres "pacientes", com fichas cadastrais, equipe médica própria e direito a bateria de exames.

No caso da segunda mulher de Dom Pedro I, Dona Amélia de Leuchtenberg, a descoberta mais surpreendente veio antes ainda de que fosse levada ao hospital: ao abrir o caixão, a arqueóloga descobriu que a imperatriz está mumificada, fato que até hoje era desconhecido em sua biografia.

O corpo da imperatriz, embora enegrecido, está preservado, inclusive cabelos, unhas e cílios. Entre as mãos de pele intacta, ela segura um crucifixo de madeira e metal.

O estudo também desmente a versão histórica - já próxima da categoria de "lenda" - de que a primeira mulher, Dona Leopoldina, teria caído ou sido derrubada por Dom Pedro de uma escada no palácio da Quinta da Boa Vista, então residência da família real.

Segundo a versão, propalada por historiadores como Paulo Setúbal, ela teria fraturado o fêmur. Nas análises no Instituto de Radiologia da USP, porém, não foi constatada nenhuma fratura nos ossos da imperatriz.

"Unimos as ciências humanas, exatas e biomédicas com o objetivo de enriquecer a História do Brasil. A cripta imperial foi transformada em laboratório de especialidades, com profissionais usando os equipamentos mais modernos em prol da pesquisa histórica", disse a pesquisadora, que defendeu hoje pela manhã sua dissertação de Mestrado na USP, após três anos trabalhando sob sigilo acadêmico.

"O material coletado será útil para que as pesquisas continuem em diversas áreas ao longo dos próximos anos."

A reportagem do Estado acompanha os estudos de Valdirene desde 2010, quando a historiadora e arqueóloga conseguiu autorização dos descendentes da família imperial para exumar os restos mortais dos personagens históricos.

Veja neste especial todos os detalhes de um estudo que reescreve detalhes da história do Brasil - confirmando algumas informações, desmentindo outras e adicionando novas verdades.

Dez verdades sobre a família imperial que não estão nos livros de História

Exames realizados em ossadas revelam segredos sobre Dom Pedro I e suas mulheres.
Os exames realizados nas ossadas da família imperial brasileira revelam fatos desconhecidos - e agora comprovados cientificamente - sobre Dom Pedro I e suas duas mulheres, as imperatrizes Maria Leopoldina e Amélia.


Confira abaixo dez verdades reveladas pela arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel e por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP sobre os ilustres personagens históricos.


1. Dom Pedro I foi realmente enterrado - e não cremado, como afirma texto exposto no interior do Monumento à Independência, no Ipiranga, que abriga a cripta com os restos mortais do imperador e das duas imperatrizes. O estudo arqueológico na cripta afasta de vez a suspeita de que não haveria corpos ali.


2. A segunda mulher de Dom Pedro I, Dona Amélia de Leuchtenberg, foi mumificada. Seu corpo está preservado, inclusive cabelos, unhas e cílios.


3. Dona Leopoldina não teve o fêmur quebrado. Acreditava-se que ela teria caído - ou sido derrubada por Dom Pedro - de uma escada e sofrido uma grave fratura, que teria culminado em sua morte.


4. Dom Pedro I sofreu fraturas em quatro costelas. A causa seriam duas quedas de cavalo, em 1823 e 1829 - ele era um apaixonado por velocidade.


5. Dona Leopoldina foi enterrada com a mesma roupa com que foi coroada imperatriz do Brasil, em 1822. Como único ornamento, usava brincos de ouro com gemas que - presumia-se - eram pedras preciosas. Análise mostrou, no entanto, que são de resina - ou seja, eram bijuteria.


6. Dom Pedro I foi enterrado como Dom Pedro IV de Portugal, com roupas de general. Todas as insígnias encontradas com sua ossada são portuguesas, sem referências em suas vestes ao passado imperial brasileiro.


7. Quando morreu, aos 66 anos, Dona Amélia tinha escoliose severa - desvio na coluna que a fazia andar torta - e osteoporose.


8. Dom Pedro I não era tão alto como se supunha. Ele media entre 1,66 m e 1,73 m - alto para um português da época, mas de mediano para baixo para um homem brasileiro atual.


9. Dom Pedro I foi enterrado com solo da região de Porto, em Portugal. Possivelmente, uma homenagem da cidade ao homem que liderou o "Cerco do Porto" (1832-1833), famoso episódio da guerra pelo trono português, entre liberais e absolutistas.


10. Dona Amélia foi enterrada totalmente de preto. Ela guardou luto por 42 anos, após a morte de Dom Pedro I.

Múmia de imperatriz surpreende pesquisadores

Segunda mulher de Dom Pedro I, Dona Amélia tem pele e órgãos internos preservados.

Uma das principais revelações do estudo arqueológico nas figuras históricas foi o fato de que d. Amélia de Leuchetenberg, segunda mulher de d. Pedro I, foi mumificada - um dado até aqui desconhecido de sua biografia.
A imperatriz, que morreu em Lisboa em 1876 e cujos restos mortais foram trazidos à cripta do Ipiranga em 1982, conserva pele e órgãos internos intactos. Cabelos, cílios, unhas, globos oculares e órgãos como o útero estão preservados.


"É uma das múmias em melhor estado de conservação já encontradas no País. Agora, precisamos pesquisar para entender exatamente por que ela ficou assim e, mais importante ainda, compreender melhor quem foi essa mulher, uma imperatriz esquecida na História do Brasil", diz a arqueóloga Valdirene Ambiel, responsável pelas pesquisas na cripta do Ipiranga.

"Quando a trouxeram à cripta, em 1982, dizia-se que ela estava 'preservada', mas ninguém sabia que poderia ser considerada múmia."


As causas exatas da mumificação de d. Amélia ainda estão sendo investigadas - não era comum entre a nobreza de Portugal que mulheres recebessem tratamento para ficarem preservadas.

"Pode ter sido um 'acidente de percurso'. Ela foi tratada para ficar conservada alguns dias, para o funeral, e isso acabou inibindo o processo de decomposição", diz Valdirene.


Os exames no Hospital das Clínicas revelaram uma incisão na jugular da imperatriz. Por ali, foram injetados aromáticos como cânfora e mirra. "No caso de d. Amélia, havia um forte odor de cânfora quando abrimos o caixão. Certamente, ajudou a anular o processo de decomposição."


Também contribuiu para a mumificação, segundo a pesquisadora, a ausência de fatores para a decomposição.

"A urna foi tão hermeticamente lacrada que não havia microorganismos para realizar a decomposição. É irônico que tenha acontecido justamente com Amélia, que pediu expressamente um funeral simples, nos quais não se costumava preparar os mortos para preservação", explica Valdirene, referindo-se ao testamento de Amélia de Leuchtemberg, no qual consta o pedido de um funeral sem ostentações. O documento, porém, só foi lido após o enterro, quando a mumificação já havia sido preparada.


Após passar pelo aparelho de tomografia do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas e de receber uma biópsia, a imperatriz foi "remumificada" - ela recebeu novo processo de embalsamamento, semelhante ao qual havia passado 136 anos antes.

Valdirene também foi a responsável por preparar e aplicar na múmia uma solução semelhante à usada em Portugal no século 18 (500g de naftalina, 500g de cânfora, 300g de manganato de potássio, 2,5 litros de álcool a 92%, 2 litros de formol e 500g de timol).
Com gaze e algodão, passou a mistura em todas as partes visíveis da imperatriz - face, pés, mãos e pescoço.
"Também passamos a solução nas laterais do corpo preservado, para que receba o tratamento por absorção. Nas costas ficou do jeito que estava, já que não podíamos levantá-la do caixão", conta a arqueóloga.


Com a descoberta, o caixão de d. Amélia recebeu um visor de vidro, que permitirá - apenas a pesquisadores - observar seu estado de conservação. No plano que apresentou à Prefeitura, Valdirene se propõe a fazer visitas semanais à cripta, para checar a preservação da múmia.

"Faz parte do projeto de preservação dos restos mortais da família imperial. Precisamos tomar conta das descobertas", diz.

Exames inéditos revelam estatura e detalhes físicos dos personagens históricos


Três médicos diferentes analisaram 89 ossos específicos do corpo humano numa técnica chamada de levantamento antropométrico.

As baterias de exames pelas quais passaram d. Leopoldina, d. Pedro I e d. Amélia nas madrugadas de 20 de março, 20 de abril e 10 de agosto de 2012 permitiram aos pesquisadores descobrir as estaturas dos personagens históricos (que nunca haviam sido comprovadas cientificamente) e detalhes de sua aparência física - formando um banco de dados que permitirá novas pesquisas e deve ser estudado a fundo ao longo dos próximos meses.


Utilizando uma técnica chamada levantamento antropométrico - na qual 89 ossos específicos do corpo humano são medidos por três médicos diferentes -, os pesquisadores descobriram que d. Pedro I tinha entre 1,66 m e 1,73 m de altura, d. Leopoldina, entre 1,54m e 1,60m, e d. Amélia, de 1,60 m a 1,66 m.


 O esqueleto de D. leopoldina

O esqueleto de D. Pedro I
Formato e constituição dos ossos também oferecem detalhes da anatomia dos imperadores. "Pelos ossos de d. Pedro, podemos afirmar que ele tinha uma estrutura forte", conclui a historiadora e arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, coordenadora do estudo.
"Não obesa, forte mesmo. Isso corrobora as menções que nós temos do gosto que ele tinha pelas atividades físicas em si. Era um homem que, pela estrutura, podia ser chamado de atlético. Apesar de não ter uma estatura hoje considerada alta, para a época era, sim."


Quanto a d. Leopoldina, a historiadora Valdirene avalia que a imagem consagrada pela iconografia oficial - de que ela era um tanto rechonchuda - não coincide com a verdade. "O natural dela era ser magra. A preservação da espinha nasal indica possibilidade de traços delicados", justifica.

"Quando ela morreu, não podemos afirmar se era obesa ou não. Mas, pela ossatura, o normal seria que fosse uma pessoa esguia."
Talvez o fato de ela ter vivido grávida na maior parte do tempo em que morou no Brasil tenha contribuído para que fosse retratada sempre como uma mulher gorda.
"Com gravidezes seguidas, não tinha como manter um corpo normal. E, por ser originária de Viena, reclamava sempre do calor do Rio de Janeiro, passava mal. Isso causa inchaço."


As nove vezes em que ficou grávida nos nove anos de casamento com d. Pedro I (sete filhos e dois abortos) deixaram marcas também na boca da imperatriz Leopoldina.

Exames de arcada dentária revelaram que ela tinha alguns abscessos dentários (lesões na raiz dos dentes) causados, segundo o odontolegista que participou da pesquisa, por deficiência de cálcio - sintoma comum a mulheres que têm uma gravidez seguida da outra.


D. Amélia sempre foi descrita como bela. "Era uma mulher mais ou menos forte. Não gorda, mas forte", descreve Valdirene. Ao morrer, os médicos sabem também que ela sofria de escoliose severa - que, provavelmente, prejudicava seu andar.


Dentes. Quanto aos dentes, é possível afirmar que os três integrantes da família imperial estudados tinham acesso às melhores técnicas da época. "Até comentei isso com meu dentista", diz Saldiva. "O 'tiradentes' que cuidava da família era bom..."

Faltavam apenas dois dentes na boca de d. Pedro I e ele tinha duas restaurações - ainda será analisado se feitas com folhas de ouro.
Os três tinham restaurações. D. Leopoldina havia perdido apenas um dente - e tinha uma restauração, que não era de ouro. D. Amélia, que morreu mais com 66 anos, havia perdido vários dentes - foi encontrada com apenas cinco, todos da arcada inferior.


 

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