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terça-feira, agosto 20, 2013

Entenda a Operação AJAX: O Golpe da CIA contra o Irã em 1953

By on 20.8.13

Atuando em conjunto, a CIA norte-americana e o MI-6, o serviço secreto inglês, arquitetaram um golpe de Estado no Irã, em 1953: a Operação Ajax. O objetivo era a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, o líder nacionalista que estatizara as empresas petrolíferas estrangeiras. Esta ação revelou-se historicamente desastrosa. 
Manifestantes nacionalistas derrubam a estatua do xá 
O nacionalismo iraniano, escorraçado e perseguido pelo regime pró-ocidental do Xá Reza Pahlevi (1953-1979), terminou por refugiar-se nas mesquitas dos sacerdotes e guias religiosos, fazendo com que eles liderassem a revolução Xiita de 1979. Revolução religiosa e cultural que causou muito mais estragos aos interesses anglo-americanos do que o nacionalismo secular de Mossadegh de vinte e cinco anos antes.

Em princípios de junho de 1953, um agente da CIA (Agência Central de Inteligência) transpôs clandestinamente a fronteira iraquiana-iraniana. Tratava-se de Kermit Roosevelt, neto do ex-presidente Theodor Roosevelt, o criador do Big stick, a política de aplicar o porrete em favor dos interesses americanos no mundo. A missão dele, a mando do secretário de Estado John F. Dulles, era convencer o Xá Reza Pahlevi a se desfazer do "inconveniente" primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, líder do Movimento Nacional Iraniano. 
primeiro-ministro Mohammad Mossadegh,
líder do Movimento Nacional Iraniano. 
 
Donald Wilber, o agente da CIA
Tinha início a Operação Ajax, coordenada pelo agente Donald Wilber e por Norman Darbyshire, o braço do serviço secreto britânico no Irã, uma das mais célebres e bem-sucedida ações clandestinas da agência norte-americana e do M-16 britânico, deflagrada para reverter uma situação crítica aos interesses anglo-americanos no Irã.

A Nacionalização do Petróleo
No dia 1º de maio de 1951, o Majles, o parlamento iraniano, por ensejo de Mossadegh, aprovara a nacionalização do petróleo. A Anglo-iranian, a grande empresa inglesa, viu-se, do dia para a noite, excluída do país onde reinava como um estado a parte desde o remoto ano de 1908. O mundo do após-guerra, especialmente nas regiões do Terceiro Mundo, começava a ser sacudido por uma maré nacionalista, onde os povos colonizados ou semicolonizados, como era o caso dos iranianos, em busca da sua autonomia política e econômica, erguiam sua fúria contra as poderosas corporações estrangeiras que detinham, historicamente, concessões vantajosas consideradas absolutamente escandalosas. 

Mossadegh, dando seqüência à política nacionalista, dera um prazo reduzido para que a empresa retirasse seus funcionários do país. No dia aprazado, lá se foram eles cantando uma versão obscena do Coronel Bogey, transportados pelos navios de Sua Majestade britânica. A incapacidade deles, dos ingleses, impotentes em poder responder militarmente ao que consideravam uma humilhação daquela ordem, seguida de uma desapropriação dos bens da companhia, assinalou para muitos o início do fim do império britânico.

Mas no ano seguinte, em 1952, o cenário político nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha alterou-se. Os conservadores, liderados por Winston Churchill, venceram as eleições na Inglaterra, enquanto que na América elegia-se o general Dwight Eisenhower, candidato dos republicanos. Afinados ideologicamente, os conservadores ingleses e os republicanos americanos de imediato articularam uma solução em conjunto para intervir no Irã. O modelo de golpe que adotaram foi um sucesso, pois o repetiram em várias oportunidades desde então.

O problema, meditaram, não era Mossadegh em si, mas o mau exemplo da sua política. Se as grandes potências ricas nada fizessem uma onda de desapropriações e nacionalizações varreria a presença dos seus interesses em boa parte do mundo.

Além disso, vivia-se naqueles anos na plenitude da guerra fria. Na equação de John Foster Dulles, poderosíssimo secretário de Estado do governo Eisenhower, o nacionalismo do Terceiro Mundo era igual ao comunismo. Ou seu aliado tático contra as nações capitalistas. No estreito mundo de então, separado pelo maniqueísmo do bem o mal, qualquer prejuízo que as corporações ocidentais pudessem sofrer pelo avanço da política nacionalista dos lideres do Terceiro Mundo implicava num enfraquecimento frente à URSS.
Para Dulles, o nacionalismo de Mossadegh conduziria o Irã fatalmente para os braços de Moscou. Portanto, ao contrário dos americanos do partido democrata, em geral anticolonialistas, os republicanos equipararam o nacionalismo do Terceiro Mundo a um inimigo tão nocivo como o comunismo.

Impossibilitados pela conjuntura de fazerem uma intervenção militar direta, desembarcando no Irã uma força anglo-americana, recorreram à antiga prática da ação indireta: a estratégia do cavalo de Tróia. Nada mais do encontrar algum modo de derrotar o inimigo dentro dos seus próprios muros. Fazer a gente de dentro voltar-se contra. 
É bem provável que alguns detalhes de como levar adiante aquela operação tenham sido fornecidos pelo coronel Wernon Walters - que tornou-se nos anos seguintes num dos maiores especialista em fabricar golpes militares pró-americanos - que já conhecia o país quando serviu como intérprete num encontro com Mossadegh em 1951. 
O escolhido pelos serviços secretos ocidentais para derrubar o governo nacionalista de Mossadegh foi o general Fazlullah Zahedi. Encarregaram-no dominar a capital, prender o ministro e reentronizar o Xá colaboracionista. Como código, até com um fundo musical a Operação Ajax contou: era um sucesso da Brodway intitulado Luck Be a Lady Tonight (Sorte, seja uma senhora esta noite), que serviu como comunicação entre os golpistas. Não faltou nem uma manifestação "espontânea" a favor do Xá, reclamando o seu retorno (ele exilara-se em Roma). Que inclusive contou com a surpreendente e prévia distribuição de milhares de cartazes com a foto do soberano.
A passeata representou a base "popular" para que o general Zahedi, a pretexto de atender os anseios do povo, colocasse as tropas na rua no dia 19 de agosto de 1953, depondo em seguida, sem muito esforço, o primeiro-ministro M. Mossadegh. Todos estes detalhes foram expostos, muitos anos depois, no livro que Kermit Roosevelt publicou em 1980, Countercoup: Struggle for control of Iran.

A reversão da política nacionalista
Em finais de agosto de 1953, tudo voltara à tranqüilidade anterior. O Xá Reza Pahlevi recuperou seus plenos poderes, assumindo o papel de títere dos interesses anglo-americanos no Irã, enquanto que estes, vitoriosos, formaram um consórcio para continuar explorando o petróleo iraniano. A Anglo-iranian ainda preservou 40%; tendo que ceder à Shell 14%, e às demais outras cinco empresas norte-americanas 8% para cada. O sucesso dessa operação foi o sinal da grande contra-ofensiva antinacionalista desencadeada pelo Departamento de Estado e pela CIA, controladas pelos irmãos Dulles, John & Allan, que criou o clima para a derrubada de Jacobo Arbens na Guatemala (em julho de 1954), para o suicídio de Vargas (em agosto de 1954), no Brasil, e pelo violento golpe militar contra Juan Domingo Perón, na Argentina, em setembro de 1955.

Conclusões

Visto à distância, a Operação Ajax foi uma vitória de Pirro. Um desastre político de grande dimensões. Ao abortarem um legítimo movimento de emancipação nacional, como foi o liderado por Mossadegh - que afinal tinha uma proposta de livrar-se do colonialismo sem recorrer à violência -, a política anglo-americana proporcionou, naturalmente que sem o desejar, que, anos depois, das entranhas da antiquíssima sociedade iraniana, nascesse um anacrônico movimento teocrático-medieval antiocidental, movimento que se consolidou a partir da Revolução Xiita de 1979.

o atual regime teocrático-sacerdotal que manda no Irã. Se os anglo-americanos tivessem aceitado e se conformado com Mossadegh (escolhido, recentemente, pelos iranianos como o Homem do Século), o Irã teria hoje um regime secular no poder. Quiçá até democrático. Provavelmente já estaria devidamente integrado na globalização e não dominado pelos fundamentalistas seguidores do aiatolá Kohmeini, unidos no seu ódio ao Ocidente e tudo o mais que representa a modernidade.

Homens do Ano
Mossadegh, Homem do Ano (1951) e J.F.Dulles, Homem do Ano (1954)

Como uma curiosa demonstração das ambigüidades da política externa norte-americana, a revista Time, que concedera a Mossadegh o título de Homem do Ano de 1951, três anos depois, deu o mesmo destaque a John Foster Dulles, o secretário de Estado que o derrubou, em 1954.

Do Educa Terra

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