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terça-feira, abril 08, 2014

BRASIL "The Forgotten Ally": “Países grandes e com ambições precisam se definir” – Thomas Shannon

By on 8.4.14
Thomas Shannon conselheiro do Departamento de Estado dos EUA, por quatro anos foi embaixador no Brasil
Cláudia Trevisan
A Venezuela está dividida internamente e também é um fator de polarização nas Américas, avaliou o conselheiro do Departamento de Estado dos EUA, Thomas Shannon, que durante quase quatro anos foi embaixador no Brasil. “A falta de disposição de países do hemisfério de lidar com o que está ocorrendo na Venezuela de maneira direta e pública é um erro”, declarou em entrevista ao Estado. Shannon disse que a anexação da Crimeia pela Rússia mudou de “maneira fundamental” a relação entre Washington e Moscou e criticou o Brasil pela omissão diante da invasão da Ucrânia. “Países grandes e com grandes ambições precisam se definir, para o benefício de todos nós”, afirmou. Shannon disse que os EUA gostariam de “fazer mais” no relacionamento com o Brasil, abalado pelas revelações de espionagem do ex-técnico da Agência de Segurança Nacional (NSA) Edward Snowden e o cancelamento da visita de Estado que a presidente Dilma Rousseff faria a Washington em outubro. A seguir, trechos da entrevista:
O presidente Obama anunciou que proporá o fim da coleta em massa de dados telefônicos pela NSA. É um reconhecimento de que Edward Snowden estava certo ao revelar o programa?

Não.
Mas a mudança não teria ocorrido se Snowden não tivesse revelado a extensão da ação da NSA.

Não creio que podemos dizer isso. Era um segredo para o público americano, mas não era um segredo para o Congresso dos Estados Unidos. Todos os programas que Snowden revelou eram aprovados não apenas pelo Executivo, mas também pelo Congresso. E todos eles, em diferentes momentos, seriam revistos.
O governo mantém a determinação de processar Snowden?

Ele é acusado de violar leis federais. Ao que eu saiba, não há mudança. Ele é um jovem que não apenas violou o juramento de proteger certos tipos de dados, mas também revelou informações que foram muito danosas a seu país.
Como medir esse dano e que outros danos o governo prevê?
É muito difícil para nós saber o que esperar. Snowden levou muitos documentos e não está claro quais serão divulgados ou quando. Mas o dano pode ser identificado de várias maneiras. O primeiro é o que ele tentou infligir à Agência de Segurança Nacional, expondo aspectos de suas operações e seus métodos de trabalho. A maneira pela qual a informação foi divulgada é obviamente desenhada para afetar relações importantes, tanto com aliados tradicionais, quanto com parceiros emergentes de importância estratégica, como o Brasil. A divulgação da informação não ocorreu de maneira aleatória. Ela tinha um propósito.
A anexação da Crimeia parece um fato consumado.

É algo que não aceitamos, independentemente do status de facto da Crimeia. É uma violação da legislação internacional, uma violação da Constituição da Ucrânia e é ilegítimo. Vamos continuar a insistir nisso, ao mesmo tempo em que tentamos assegurar que nossa resposta e de nossos aliados europeus seja forte o suficiente para que o sr. Putin não seja tentado a fazer isso de novo, porque é muito perigoso. A paz e o bem-estar da Europa tem dependido da contenção extraordinária dos ucranianos e de sua disposição de não lutar.
Mas a contenção não é consequência do enorme desequilíbrio militar entre Ucrânia e Rússia?

Estrategicamente pode ser, mas do ponto de vista humano é muito difícil ver algo semelhante ocorrer. É muito desafiador para os ucranianos lidarem com esse tipo de agressão e não responderem de maneira humana, resistindo. Mas há uma questão mais ampla aqui. Existem muitas disputas territoriais no mundo e muitas demandas históricas sobre territórios. Nós construímos sistemas para resolver essas questões sem o uso da força, por meio da negociação. O comportamento russo quebrou isso e é importante deixar claro que esse tipo de comportamento não é aceitável e não pode ser repetido em outros lugares do mundo. A tragédia é que a Rússia, por motivos que são atávicos, escolheu o caminho que vai mudar de modo fundamental sua relação com os EUA e com a Europa, de uma forma que não atende aos seus interesses de longo prazo.
É factível a hipótese de que os EUA forneçam gás para a Europa no futuro e supram ao menos parte da demanda que hoje depende da Rússia?

Sim, é. Um de nossos objetivos globais não é balcanizar ou dividir os mercados de energia, mas criar suficientes fontes de suprimento de petróleo e gás para que haja segurança energética.
O presidente Vladimir Putin estará no Brasil em julho para a reunião do Brics. Como isso afeta a estratégia dos EUA e da Europa de tentar impor um custo à Rússia?

Obviamente, o Brasil toma suas próprias decisões. Mas era de se esperar que um país tão grande e com a trajetória pacífica do Brasil tivesse uma posição clara nesse caso. Países grandes e com grandes ambições precisam se definir, para o benefício de todos nós.
Como está a discussão com o governo brasileiro sobre a NSA?
As conversas continuam e são positivas. Nós gostaríamos de fazer mais em nossa relação. Os interesses subjacentes a ela continuam os mesmos e são tão imperativos hoje quanto eram no passado. O benefício da relação para os dois países é evidente e é doloroso quando perdemos tempo. Mas vamos alcançar um ponto no qual a sanidade prevalecerá e continuaremos a construir uma relação que seja mais do que transacional, uma relação que seja estratégica em seus objetivos.
Quais os riscos da polarização entre governo e oposição na Venezuela?
É uma situação muito perigosa. O conflito já custou a vida de muitas pessoas, levou à prisão de políticos e criou uma crise no governo. Isso precisa ser resolvido. Nós olhamos com esperança para a missão da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) que negocia na Venezuela. Esperança de que ela encontre um modo de criar um espaço para o diálogo entre o governo e a oposição.
Qual o grau de frustração dos EUA com a decisão da Organização dos Estados Americanos de não discutir a situação da Venezuela na reunião de Conselho Permanente do dia 21?

Nós acreditamos que a OEA pode desempenhar um papel mais importante. Mas a questão desafiadora na Venezuela é que o país não apenas está profundamente polarizado no âmbito doméstico. Ele também é polarizador no âmbito internacional. E não é isso que a Venezuela precisa agora. A Venezuela não precisa que os países tomem partido. Ela precisa de países que a ajudem a encontrar caminhos para enfrentar a sua polarização. Enquanto os países do hemisfério não estiverem dispostos a adotar essa posição e enquanto a OEA não estiver pronta para atuar de maneira que demonstre solidariedade à Venezuela como país e tente criar as condições para que o diálogo possa ocorrer, será muito difícil enfrentar os problemas. Infelizmente, uma das consequências da polarização da Venezuela é que muitos países na região se afastaram da tradição de apoio aos direitos humanos e às instituições interamericanas que apoiam os direitos humanos. Instituições que tiveram papel fundamental em suas próprias transições políticas e protegeram pessoas que estavam na prisão ou tiveram de fugir em razão de governos autoritários. A falta de disposição de países do hemisfério de lidar com o que está ocorrendo na Venezuela de maneira direta e pública é um erro. Mas também é desalentador e triste, porque esses próprios países estão perdendo algo importante.
A manutenção de sanções econômicas a Cuba pelos EUA continua a fazer sentido?

É uma boa questão e todo mundo tem uma resposta diferente para ela. Nosso Congresso acredita que elas ainda são úteis. Cuba, como a Venezuela, tem uma influência perniciosa na comunidade interamericana, especialmente na América Latina. Muitos países, em um esforço de acomodar Cuba dentro de instituições como a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), estão dispostos a se afastar de compromissos públicos com processos democráticos e o respeito aos direitos humanos. Eu entendo que haja debate sobre como se deve lidar com Cuba e sobre o sucesso ou fracasso de nossa abordagem, assim como o interesse de muitos países de tentar outra abordagem, de engajamento. Mas eu não creio que nesse processo os países da região devam dar passos para trás em compromissos históricos com a democracia, com os direitos humanos, com um entendimento do hemisfério do qual Cuba não participa. Há um papel importante para países como o Brasil dentro de Cuba, especialmente se nossa própria legislação impede que nós nos engajemos. Isso pode ser importante porque está preparando o terreno para uma transição política que terá de ocorrer. Mas o que estou dizendo é que quando países da região decidem se engajar com Cuba desse modo, eles não deveriam se afastar de compromissos com a democracia.

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