Apesar do espantoso crescimento econômico da China, tem se tornado mais difícil progredir na cidade grande, pois os que têm cargo e influência são os mais beneficiados

Em junho, um amigo meu chinês que cresceu na cidade industrial de Shenyang no norte da China e recentemente formou-se na universidade mudou-se para Pequim para seguir seu sonho – trabalhar numa empresa de mídia.

Ele tem um emprego de tempo integral, mas o salário dos iniciantes não é grande e ele tem tido dificuldade para fechar suas contas. Quando almoçamos recentemente, ele expôs sua situação familiar, que descreveu como “não ideal”. Estava vivendo num apartamento de três quartos dividido por sete pessoas, perto da Estrada do Quarto Anel – a via perimetral da cidade. Cinco de seus colegas de apartamento eram moças que saíam todo dia para trabalhar às 23 horas e voltavam às 4 horas. “Elas diziam que estavam trabalhando no turno da noite da Tesco”, a cadeia de varejo britânica, mas ele tinha dúvidas. Uma noite, ele as avistou entrando num clube de karaokê muito maquiadas e com “saias muito mais curtas que minhas cuecas samba-canção” e pela entrada dos funcionários. “Elas eram prostitutas”, ele concluiu. “Eu me sinto um pouco desconfortável.”

Mas quando ele contabilizou suas despesas mensais e considerou sua falta de conexões especiais na cidade, fosse para melhorar sua remuneração, fosse para encontrar uma moradia mais confortável, mas também mais cara, imaginou que teria de se ater a sua melancólica condição de vida.

“Vim para cá para ser jornalista – é o meu objetivo, e não quero voltar agora. Mas isso parece mais difícil do que costumava ser.” Quando perguntei como seus colegas de profissão e ex-colegas de escola estão se saindo, ele pensou por alguns instantes e respondeu que alguns estavam basicamente na mesma situação que ele. “Mas muitos de meus amigos têm parentes em Pequim e podem economizar dinheiro morando com eles. Se a sua família já estiver estabelecida por aqui, ajuda um bocado.” Após um momento, ele acrescentou: “E alguns têm pais ricos que já lhes compraram apartamentos – e carros”.

Apesar do espantoso crescimento econômico da China, tem se tornado mais difícil pessoas como meu amigo progredir na cidade grande. A profissão dele não é particularmente lucrativa.

Como muitos em Pequim, ele não pode contar com uma correção salarial anual para acompanhar as taxas de inflação oficiais da China – que muitos economistas, aliás, suspeitam que são subestimadas (a taxa de inflação do índice de preços ao consumidor é considerada um assunto tão sensível que o Conselho de Estado a aprova antes de ela ser divulgada publicamente). Mesmo assim, em cada mês deste ano, a inflação do índice de preços ao consumidor excedeu a meta mensal média oficial de 4%. No mês passado, a mídia estatal saudou como boa nova que a taxa ficou, oficialmente, em apenas 4,2%.

Qualquer um em Pequim pode apontar exemplos de amigos que viram seus aluguéis subirem 10% ou até mais em um ano. Os preços nos restaurantes continuam aumentando, enquanto as porções estão ficando perceptivelmente menores.

Some-se a isso a perda de bens inatingíveis que o dinheiro não pode comprar – como qualidade do ar e segurança alimentar – e começa-se a compreender os resmungos entre algumas das pessoas não ricas em Pequim de que seu padrão de vida parece estar diminuindo, enquanto o Produto Interno Bruto nacional avança inebriantes 9%.

Seria verdade que uma fatia da população nas grandes cidades da China está sofrendo um declínio na relação entre seus salários e suas despesas vitais? Perguntei a Patrick Chovanec, um professor adjunto na Escola de Economia e Administração da Universidade Tsinghua em Pequim.

Infelizmente, ele disse, é difícil encontrar muito esclarecimento nas estatísticas oficiais famosamente falseáveis da China (por exemplo, a taxa de desemprego oficial só inclui indivíduos com hukous, ou permissões de residência permanente, urbanas – o que exclui a maioria dos economicamente vulneráveis). Além disso, observou, “é quando a pessoa percebe que está perdendo poder de compra – ou tem expectativas crescentes, mas não satisfeitas – que ela fica inquieta… E este país, para um país que está crescendo mais de 9%, está com um ânimo inquieto”.

De fato, há um sentimento palpável de frustração em Pequim, especialmente em comparação com a última vez em que eu vivi ali, em 2008. Pode-se ver nos rostos carrancudos no metrô, ouvir nas vozes ásperas em conversas de jantar, e, em especial, sentir na nova rudeza de motoristas de táxi que já não acham que transportar pessoas pela cidade por 10 yuan, cerca de US$ 1,60, é um negócio tão bom para eles (sua tarifa base não subiu). Mesmo assim, é difícil revoltar-se contra abstrações. É muito mais fácil revoltar-se com pessoas insolentes.

Não espanta, pois, que em 2011 a mídia chinesa e a Sina Weibo (versão do Twitter da China) se alvoroçaram quase todo mês com reportagens indecentes sobre os tipos Paris Hilton da China – os filhos e filhas da elite rica e política com penduricalhos opulentos e pouco juízo – comportando-se mal em BMWs e Audis, e tipicamente esperando se safar também.

O ano começou com o julgamento de Li Qiming, um estudante universitário da Província de Hebei que, em outubro de 2010, estava dirigindo embriagado e atingiu dois outros colegas estudantes que estavam andando de skate, matando um deles. Quando viu o que havia ocorrido, ele tentou fugir, mas a guarda do câmpus parou o veículo.

Quando interrogado, a primeira coisa que ele disse precipitadamente, segundo os noticiários, foi: “Meu pai é Li Gang.” Li Gang é vice-chefe de política distrital.

Depois houve Li Tianyi, de 15 anos, filho de um oficial de alto escalão do Exército, que não tinha carta de motorista quando se pôs atrás do volante de uma BMW em setembro. Enquanto farreava pelas ruas de Pequim, ele ficou frustrado quando outro carro bloqueou seu caminho. Conforme se noticiou, ele saiu do carro e atacou o outro motorista enquanto ele ou um amigo gritava, “Quem vai ousar chamar a polícia?” Por trás do para-brisa do seu carro estava um licença de condução temporária concedida pelo Grande Salão do Povo, o edifício do Parlamento da China.

E, no começo deste mês, um aluno da Academia de Cinema de Pequim entrou numa disputa sobre onde poderia estacionar seu Audi, o carro preferido das autoridades chinesas atualmente. Após uma briga no estacionamento, um faxineiro, um trabalhador migrante de 43 anos da província vizinha de Hebei, foi levado a um hospital, onde morreu.

O equivalente feminino mais próximo talvez tenha sido a saga de Guo “Meimei”, uma garota de 20 anos com rosto em forma de coração e grandes olhos castanhos que deu de postar fotos suas guiando seu “cavalinho” (uma Maserati branca) e seu “tourinho” (uma Lamborghini laranja) em seu microblog no Weibo. Por sua conta, ela afirmou que era uma administradora-geral da Cruz Vermelha da China, uma das organizações de caridade maiores e mais politicamente conectada do país. Seus bens de luxo, para não falar de seu péssimo juízo, foram tomados pelos leitores como sinais de corrupção na organização beneficente (nos meses seguintes ao escândalo, que atingiu o auge em junho, as doações à organização caíram vertiginosamente). Mais tarde, verificou-se que ela não tinha nenhum cargo na instituição, mas circularam rumores de que seria amante ou parente de alguém da Cruz Vermelha.

O ódio na China a esses comportamentos diletantes é mais profundo do que, por exemplo, a relação de amor e ódio a Lindsay Lohan nos Estados Unidos. Como me disse Michael Anti, um popular blogueiro e comentarista político chinês: “Os ricos estão se tornando uma dinastia. Agora, as pessoas na China percebem que “você ganha seu cargo não por formação ou trabalho duro, mas pelo seu papai”. Anti acrescentou que, embora corrupção e guanxi (rede de influência) não sejam conceitos novos na China, havia anteriormente uma crença maior na mobilidade social pelo mérito.

“Antes, a universidade era um canal para se chegar à classe dirigente. Agora, a classe dirigente só promove a si mesma.” Há um sentimento surdo de que alguma coisa mudou. “Não é simplesmente a igualdade de renda que incomoda as pessoas – isso é um equívoco”, disse Chovanec. “Quando Jack Ma ganha US$ 1 bilhão por iniciar uma empresa bem-sucedida, tudo bem… É a desigualdade de privilégios. É como as pessoas ganham seu dinheiro. Existe hoje toda uma classe de pessoas enriquecendo porque elas são quem são, e não o que elas fazem – e elas seguem um conjunto de regras diferente.”

Na China de hoje, as capacidades de comprar e vender imóveis e ganhar contratos do governo estão entre os maiores motores da riqueza, e são os que já são ricos e bem relacionados que têm acesso a essas oportunidades. Se os filhos deles são preguiçosos e obtusos, eles podem usar seus status para criar oportunidades e cargos para eles, barrando as trajetórias de aspirantes mais aptos. O status social está se tornando cada vez mais entranhado pois, como nota Chovanec, “o governo tem muito controle na economia chinesa… o governo tem um grande poder de determinar vencedores e perdedores, de modo que quem você é, e quem você conhece, é mais importante do que qualquer outra coisa para determinar o sucesso”.

E os que estão no topo agem, cada vez mais, acima da lei. “O privilégio gera dinheiro, e o dinheiro gera privilégio.” Isso desmente, é claro, o conto de fadas otimista, popular, da China nos últimos 30 anos, devidamente promovido pela força governante, o Partido Comunista, de que uma maré crescente e uma economia pujante inevitavelmente levantam todos os barcos; o futuro será melhor, materialmente, que o passado; o trabalho duro o fará progredir; e a educação é a grande niveladora. Chamem-no de sonho chinês.

“Bem, isso era verdadeiro, de fato, mas não é mais”, reflete Qiao Mu, um professor da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim.

“Veja o meu caso. Nasci em 1970 em uma família pobre na China ocidental. Ainda não havia uma grande classe de pessoas ricas na China, de modo que as oportunidades eram mais abertas. Naquele tempo, eu podia depender de meu trabalho duro e estudo para progredir. Podia alterar minha posição na sociedade.” Hoje, porém, diz ele, com um profundo suspiro, “é muito mais difícil para esses jovens, meus alunos. É preciso se apoiar em seus antecedentes, e os que já têm conexões e riqueza se ajudam e ajudam seus filhos… A situação está se agravando, não melhorando.” Como diz o meu desanimado amigo repórter: “As pessoas já não acreditam que se pode vencer pelo trabalho duro e honesto na China”.

TRADUÇÃO DE CELSO