Será que na União Européia, um exame de DNA talvez pudesse identificar ancestrais comuns. Neste caso, quando foi que uns perderam de outros? Ou será que nunca estiveram juntos? Por quê? Este juízo sobre os europeus volta e meia aparece entre nós, ou melhor, quase sempre. Poderia ser inveja desses primos ricos, diriam uns, ou apenas implicância entre os chamados países emergentes, diriam outros. Mas se focarmos esses países com mais atenção - nem seria preciso uma lupa muito grande -, logo surge a dúvida: e por acaso somos parentes ou aderentes?

Como já era esperado, o Banco Central Europeu (BCE) aumentou sua taxa de juro básica na primeira semana de abril. Desde que o conselho governador do BCE se reunira no início de março, o presidente do banco, Jean-Claude Trichet, quase não poderia ter indicado com maior clareza a iminência de um aumento de juros.


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Apesar dos conflitos na Tunísia, Egito e Líbia e do tsunami no Japão, não houve sinais de dúvida entre os 23 integrantes do conselho. O aumento empurra a taxa de um piso histórico de 1%, mantido por quase dois anos (desde maio de 2009) para 1,25%, colocaria o BCE bem à frente do Federal Reserve e também do Banco da Inglaterra, cujos responsáveis pela definição da taxa se reuniram na mesma data para manter o juro básico de 0,5%.


Trichet afirma que o endurecimento é necessário para, digamos, evitar os efeitos "secundários" do aumento dos preços das matérias-primas, enquanto os salários e os preços reagem a um salto inicial entrando em uma espiral mais elevada. Contudo, os salários estão tranquilos na Zona do Euro. Isso dificilmente causa surpresa. A economia alemã disparou ano passado e cresceu 3,6%, mas o PIB amplo europeu aumentou apenas 1,7%. Embora a recessão tenha sido a mais dura de quatro crises da Zona do Euro.

É difícil evitar a conclusão de que há mais ânsia do BCE de aumentar os juros do que uma simples avaliação de perspectivas econômicas. O BCE está dolorosamente consciente de que foi arrastado para águas fiscais enlameadas ao comprar títulos do governo de países abalados pela dívida, como Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal. Isso torna O BCE ainda mais ávido para reafirmar suas credenciais no combate da inflação ao não permitir adiamentos no aumento de juros. A política interna também está em jogo. Trichet deverá deixar o cargo em outubro. Uma batalha pela sucessão está em curso, e nela as opiniões de Angela Merkel, a chanceler alemã, serão cruciais.

Na Alemanha, um pequeno aumento nas taxas de juro mal arranhará a economia. Na Espanha, cujas perspectivas são cruciais para que a crise da dívida seja contida, vai prejudicar as famílias com hipotecas, a maioria das quais tem taxas variáveis. E na Grécia, Irlanda e Portugal se aplicam programas de austeridade.
Tio Sam respira com aparelhos. Assim como a União Européia, se esmeram em agravar os próprios problemas. A intransigência dos republicanos ameaça o próprio funcionamento do governo dos Estados Unidos. Gastaram demais na crise. A maior economia do mundo tem que cortar drasticamente despesas. A oposição se agiganta. O governo de Obama parece fracassar e cortes de mais de 4 trilhões de dólares terão que ser feitos e não ousar pagar na mesma moeda, expor a farsa e defender sua própria visão do futuro com clareza. Aflito por apoio da mídia e empresários para a reeleição, teme um confronto direto com a oposição.

Fonte: Blog Espaço Aberto Por: SERGIO BARRA é médico e professor