
Em nosso subcontinente, a vontade dos menores, curiosamente, parece
prevalecer sobre a dos maiores. Um estudante de intercâmbio em Relações
Internacionais, recém-chegado de Marte, ao ler as notícias sobre a
perseguição a empresários brasileiros, pelo governo boliviano, em
represália à decisão do Brasil de conceder asilo a um senador da
oposição, poderia bem supor que a Bolívia é o país sul-americano com 8,5
milhões de quilômetros quadrados, uma população de 205 milhões de
habitantes e um produto interno bruto (PIB) de US$ 2,4 trilhões; e o
Brasil, a nação mais frágil, com território de 1 milhão de quilômetros
quadrados, 10 milhões de habitantes e um PIB de US$ 25 bilhões. Às vezes
pode até parecer que é efetivamente assim, mas a realidade é o inverso.
Infelizmente, esse episódio recente não é um fato isolado. A Bolívia
já ocupou antes uma planta da Petrobrás. O Equador contestou a
legalidade de um empréstimo do BNDES porque se indispôs com a companhia
construtora brasileira. Enquanto isso, o secretário de Comércio da
Argentina, com uma simples chamada telefônica, costuma violar o espírito
e a letra do Tratado de Assunção, o ato constitutivo do Mercosul.
A menção a esses fatos de modo algum sugere que o Brasil deva
prevalecer-se de sua superioridade econômica ou do tamanho de seu
mercado para impor a sua vontade. Ao contrário. Por uma questão de
solidariedade para com os nossos vizinhos e irmãos sul-americanos, e
mesmo por interesses econômicos e políticos próprios, o Brasil deve
buscar uma prosperidade compartilhada na região. Por que não traduzir as
palavras em fatos e promover uma abertura generalizada e unilateral do
nosso mercado aos parceiros sul-americanos? Quem tem condições para
propor, acertadamente, uma liberalização multilateral do comércio no
âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), com mais razão pode
comprometer-se com uma abertura mais ampla no âmbito regional.

Por que não impulsionar, como faz a China, uma integração do espaço
econômico regional por meio do mercado? Na medida em que um acordo de
integração é inviável na Ásia, em face dos vários conflitos entre países
da região, as grandes empresas chinesas, com o velado apoio de seu
governo, desenvolveram mecanismos de complementação industrial e de
integração das cadeias produtivas com as economias vizinhas. Hoje o
comércio intra-asiático já representa 53% das trocas totais dos países
do continente. No Mercosul esse porcentual, que já foi de 21%, de 1992 a
1999, caiu para 14% de 2000 a 2008. O Mercosul já representou 17% das
exportações brasileiras, hoje não passa de 11%.
Estamos assistindo a um visível retrocesso comercial e institucional
do Mercosul, entre outras razões, pela tolerância com a violação
sistemática das suas regras e o desrespeito às suas instituições. A
benevolência diante do descumprimento gera o descrédito perante a
sociedade, a insegurança jurídica para os agentes econômicos e a
deterioração da imagem do Mercosul entre os seus parceiros no restante
do mundo.

O episódio recente na Bolívia é lamentável. E não somente pela
mesquinhez das ameaças contra produtores, que nada têm que ver com as
políticas de seus governos. Mas também por questionar a legitimidade do
asilo diplomático, uma das mais genuínas tradições da diplomacia
latino-americana, consagrada no caso de Haya de la Torre, um dos
próceres ilustres do nosso continente.
A Bolívia só se sente à vontade para praticar atos de verdadeira
provocação por estar convencida de que, mais uma vez, contará com a
benevolência do Brasil.
Diante desse cenário insólito, só nos resta indagar, repetindo Cícero: até quando, ó Morales, abusarás de nossa paciência?
DIPLOMATA, FOI EMBAIXADOR EM LONDRES E EM PARIS
Fonte: Estadão
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