"Qualquer coisa nesse sentido precisa antes ser conversada com a família imperial. Precisamos respeitar. Eles têm uma inegável imagem histórica, mas o estudo traz muitas possibilidades e muita gente vai ter ideias sobre isso", diz o médico radiologista Edson Amaro Júnior, coordenador de neuroimagem funcional da Faculdade de Medicina da USP. "Só é preciso ficar claro que não estamos vendendo suvenir de Dom Pedro."
Na etapa já desenvolvida, as alturas das três figuras históricas já foram estimadas. É possível utilizar o mesmo princípio para, em um desdobramento mais minucioso e demorado, simular estatisticamente como seriam seus rostos, por exemplo. É exatamente a mesma técnica utilizada há pouco na Inglaterra, para recriar a face do rei Ricardo III.
Para isso, será preciso tabular os dados conhecidos de cada osso e cruzar com a média da população humana, a fim de conseguir as estimativas de gordura e pele para cada segmento.
"É algo que levará muitos meses e envolverá vários especialistas", explica Amaro. "Temos o componente estatístico, quando consideramos as médias da população, e o determinístico, ao avaliarmos as dimensões da própria ossada."
Procedimento semelhante também deve possibilitar a simulação dos movimentos desses personagens e até mesmo a recriação do timbre da voz.
"Para isso, precisamos reconstruir os seios da face, a laringe, a faringe, a amplitude do pulmão e a caixa torácica. Tudo isso interfere na voz de uma pessoa", explica.
DNA
Outro desdobramento importante deve ser a análise do DNA das figuras históricas. Foram colhidas amostras dos três personagens - embora, pelo fato de o material ter mais de um século, não há a certeza de que algo poderá ser estudado.
"Os resultados devem sair ainda neste ano", afirma o médico patologista Luiz Fernando Ferraz da Silva, da Faculdade de Medicina da USP.
"Estamos firmando um contrato com um instituto americano. O sequenciamento leva de 2 a 3 meses. A análise, outros 4 meses." Os exames de DNA nos três personagens, informa o professor, custarão entre US$ 30 mil e US$ 40 mil.
Com o mapeamento dos genes da família imperial, a equipe médica espera conseguir esmiuçar mais a fundo algumas doenças relacionadas a mutações específicas. "Um exemplo é o caso da epilepsia de Dom Pedro. Em alguns casos, essa doença pode ter relação com alterações genéticas", diz Ferraz da Silva.
Os exames - realizados em sigilo entre fevereiro e setembro de 2012 pela historiadora e arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, com o apoio da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) - revelam fatos desconhecidos sobre a família imperial brasileira, agora comprovados pela ciência, e compõem um retrato jamais visto dos personagens históricos.
Ao realizar o inventário do caixão de Dom Pedro, nova surpresa: não havia nenhuma comenda ou insígnia brasileira entre as cinco medalhas encontradas em seu esqueleto.
Ao longo de três madrugadas, os restos mortais da família imperial brasileira foram transportados da cripta imperial, no Parque da Independência, à Faculdade de Medicina da USP, na Avenida Doutor Arnaldo, em Cerqueira César, onde passaram por sessões de até cinco horas de tomografias e ressonância magnética.
No caso da segunda mulher de Dom Pedro I, Dona Amélia de Leuchtenberg, a descoberta mais surpreendente veio antes ainda de que fosse levada ao hospital: ao abrir o caixão, a arqueóloga descobriu que a imperatriz está mumificada, fato que até hoje era desconhecido em sua biografia.
O estudo também desmente a versão histórica - já próxima da categoria de "lenda" - de que a primeira mulher, Dona Leopoldina, teria caído ou sido derrubada por Dom Pedro de uma escada no palácio da Quinta da Boa Vista, então residência da família real.
"Unimos as ciências humanas, exatas e biomédicas com o objetivo de enriquecer a História do Brasil. A cripta imperial foi transformada em laboratório de especialidades, com profissionais usando os equipamentos mais modernos em prol da pesquisa histórica", disse a pesquisadora, que defendeu hoje pela manhã sua dissertação de Mestrado na USP, após três anos trabalhando sob sigilo acadêmico.
A reportagem do Estado acompanha os estudos de Valdirene desde 2010, quando a historiadora e arqueóloga conseguiu autorização dos descendentes da família imperial para exumar os restos mortais dos personagens históricos.
Dez verdades sobre a família imperial que não estão nos livros de História
Confira abaixo dez verdades reveladas pela arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel e por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP sobre os ilustres personagens históricos.
2. A segunda mulher de Dom Pedro I, Dona Amélia de Leuchtenberg, foi mumificada. Seu corpo está preservado, inclusive cabelos, unhas e cílios.
3. Dona Leopoldina não teve o fêmur quebrado. Acreditava-se que ela teria caído - ou sido derrubada por Dom Pedro - de uma escada e sofrido uma grave fratura, que teria culminado em sua morte.
4. Dom Pedro I sofreu fraturas em quatro costelas. A causa seriam duas quedas de cavalo, em 1823 e 1829 - ele era um apaixonado por velocidade.
5. Dona Leopoldina foi enterrada com a mesma roupa com que foi coroada imperatriz do Brasil, em 1822. Como único ornamento, usava brincos de ouro com gemas que - presumia-se - eram pedras preciosas. Análise mostrou, no entanto, que são de resina - ou seja, eram bijuteria.
6. Dom Pedro I foi enterrado como Dom Pedro IV de Portugal, com roupas de general. Todas as insígnias encontradas com sua ossada são portuguesas, sem referências em suas vestes ao passado imperial brasileiro.
7. Quando morreu, aos 66 anos, Dona Amélia tinha escoliose severa - desvio na coluna que a fazia andar torta - e osteoporose.
8. Dom Pedro I não era tão alto como se supunha. Ele media entre 1,66 m e 1,73 m - alto para um português da época, mas de mediano para baixo para um homem brasileiro atual.
9. Dom Pedro I foi enterrado com solo da região de Porto, em Portugal. Possivelmente, uma homenagem da cidade ao homem que liderou o "Cerco do Porto" (1832-1833), famoso episódio da guerra pelo trono português, entre liberais e absolutistas.
10. Dona Amélia foi enterrada totalmente de preto. Ela guardou luto por 42 anos, após a morte de Dom Pedro I.
Múmia de imperatriz surpreende pesquisadores
Segunda mulher de Dom Pedro I, Dona Amélia tem pele e órgãos internos preservados.
"É uma das múmias em melhor estado de conservação já encontradas no País. Agora, precisamos pesquisar para entender exatamente por que ela ficou assim e, mais importante ainda, compreender melhor quem foi essa mulher, uma imperatriz esquecida na História do Brasil", diz a arqueóloga Valdirene Ambiel, responsável pelas pesquisas na cripta do Ipiranga.
"Pode ter sido um 'acidente de percurso'. Ela foi tratada para ficar conservada alguns dias, para o funeral, e isso acabou inibindo o processo de decomposição", diz Valdirene.
Os exames no Hospital das Clínicas revelaram uma incisão na jugular da imperatriz. Por ali, foram injetados aromáticos como cânfora e mirra. "No caso de d. Amélia, havia um forte odor de cânfora quando abrimos o caixão. Certamente, ajudou a anular o processo de decomposição."
Também contribuiu para a mumificação, segundo a pesquisadora, a ausência de fatores para a decomposição.
Após passar pelo aparelho de tomografia do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas e de receber uma biópsia, a imperatriz foi "remumificada" - ela recebeu novo processo de embalsamamento, semelhante ao qual havia passado 136 anos antes.
Com a descoberta, o caixão de d. Amélia recebeu um visor de vidro, que permitirá - apenas a pesquisadores - observar seu estado de conservação. No plano que apresentou à Prefeitura, Valdirene se propõe a fazer visitas semanais à cripta, para checar a preservação da múmia.
Exames inéditos revelam estatura e detalhes físicos dos personagens históricos
Três médicos diferentes analisaram 89 ossos específicos do corpo humano numa técnica chamada de levantamento antropométrico.
Utilizando uma técnica chamada levantamento antropométrico - na qual 89 ossos específicos do corpo humano são medidos por três médicos diferentes -, os pesquisadores descobriram que d. Pedro I tinha entre 1,66 m e 1,73 m de altura, d. Leopoldina, entre 1,54m e 1,60m, e d. Amélia, de 1,60 m a 1,66 m.
Quanto a d. Leopoldina, a historiadora Valdirene avalia que a imagem consagrada pela iconografia oficial - de que ela era um tanto rechonchuda - não coincide com a verdade. "O natural dela era ser magra. A preservação da espinha nasal indica possibilidade de traços delicados", justifica.
As nove vezes em que ficou grávida nos nove anos de casamento com d. Pedro I (sete filhos e dois abortos) deixaram marcas também na boca da imperatriz Leopoldina.
D. Amélia sempre foi descrita como bela. "Era uma mulher mais ou menos forte. Não gorda, mas forte", descreve Valdirene. Ao morrer, os médicos sabem também que ela sofria de escoliose severa - que, provavelmente, prejudicava seu andar.
Dentes. Quanto aos dentes, é possível afirmar que os três integrantes da família imperial estudados tinham acesso às melhores técnicas da época. "Até comentei isso com meu dentista", diz Saldiva. "O 'tiradentes' que cuidava da família era bom..."




















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