A experiência prévia à frente de operações militares
no Haiti fez o general de divisão brasileiro Carlos Alberto dos Santos
Cruz ser convidado pela ONU para comandar sua maior missão de paz: a
Monusco, na República Democrática do Congo.
Embora se torne responsável por uma tropa de
mais de 20 mil capacetes azuis, sua tarefa mais delicada será conduzir
uma unidade militar criada há menos de um mês, de uma forma sem
precedentes na história das missões da paz da ONU.
A "Brigada de Intervenção" foi estabelecida com uma "autorização
especial" da cúpula da ONU para adotar "qualquer medida necessária" para
derrotar o M23 (Movimento 23 de Março), o FDLR (Forças Democráticas
para Libertação de Ruanda) e o LRA (Exército de Resistência do Senhor), e
ao menos outros quatro grupos rebeldes locais e internacionais que
operam especialmente no leste do país.
Na prática, isso significa que o Departamento de
Missões da Paz da ONU criou uma estrutura para possibilitar a
realização de ofensivas militares mais robustas no âmbito de uma missão
de paz convencional, sem ferir a legislação e os princípios das Nações
Unidas.
A brigada, sediada na cidade de Goma, é composta
por dois batalhões de infantaria, um de artilharia, um de forças
especiais e uma companhia de reconhecimento. Santos Cruz e um grupo de
oficiais brasileiros comandarão um contingente formado principalmente
por soldados africanos.
"Há uma grande variedade de grupos rebeldes no
leste do país. Eu me considero pronto para enfrentar até o pior cenário.
O objetivo será aliviar o sofrimento da população", disse Santos Cruz à
BBC Brasil.
A escolha dele foi motivada pelo papel que
exerceu como chefe militar da missão de paz no Haiti entre os anos de
2007 e 2009, segundo fontes ouvidas pela BBC Brasil.
Na época, o general autorizou seus coronéis e
subordinados a planejar e executar ações de força, que finalizaram o
processo de desmantelamento de grupos rebeldes e gangues que dominavam a
favela de Citè Soleil – o último grande bastião rebelde do país.
Segundo militares ouvidos pela BBC Brasil, assim
como seus antecessores, Santos Cruz sofreu grande pressão de diplomatas
da ONU para endurecer as ações no Haiti naquela ocasião.
Porém, de acordo com diplomatas do Itamaraty,
ele teve versatilidade para balancear o uso da força – fazendo com que
as operações em Porto Príncipe atingissem seus objetivos sem descumprir a
legislação internacional ou ferir direitos humanos.
Além disso, o general ganhou a confiança do
embaixador Edmond Mulet, que à época chefiou a parte civil da Minustah e
hoje é o assistente do secretário-geral da ONU para operações de paz.
Ou seja, segundo fontes no Itamaraty, não houve
um esforço diplomático brasileiro específico para assumir a missão na
RDC, mas um reconhecimento da ONU sobre o papel que o Brasil exerceu na
pacificação do Haiti que foi recompensado.
"Trata-se de uma homenagem pelo excelente
trabalho que ele desempenhou à frente da Minustah e um novo sinal de
reconhecimento internacional à atuação dos militares brasileiros", disse
em entrevista o ministro da Defesa Celso Amorim, que ocupava a
chancelaria durante a maior parte da permanência de tropas brasileiras
no Haiti.
Santos Cruz já havia sido colocado na reserva
quando começou a ser sondado para a missão na RDC. Vinculado atualmente a
um órgão civil do governo federal, está sendo trazido de volta à ativa
no Exército para assumir o cargo internacional.
Ele disse à BBC Brasil acreditar que a percepção
e a experiência com situações dinâmicas adquiridas no Haiti serão de
grande ajuda na RDC. Porém, afirmou que são missões muito diferentes,
principalmente em relação ao tamanho do país de 71 milhões de habitantes
(o Haiti tem 8 milhões) e da diversidades das forças que disputam o
poder.
A situação na região da RDC começou a se agravar após o genocídio de
Ruanda, em 1994, quando mais de 1,2 milhão de hutus (muitos deles
milicianos envolvidos no massacre de tutsis em Ruanda) cruzaram a
fronteira leste da RDC, o antigo Zaire – em uma área tradicionalmente
habitada por tutsis e outras etnias.
Ali, os hutus se aliaram a forças do governo do
então Zaire em uma campanha militar contra os tutsis congoleses. Mas uma
coalizão de tropas de Ruanda e Uganda com forças rebeldes congolesas,
lideradas por Laurent Désiré Kabila, invadiu o país e derrotou o
Exército do então presidente Mobuto Sese Seko, tomando a capital,
Kinshasa, em 1997 e colocando Kabila no poder. Um ano depois, Kabila
enfrentou uma rebelião que também teve a intromissão de nações vizinhas.
Em 1999 a ONU promoveu um cessar-fogo entre a
RDC e Angola, Namíbia, Ruanda, Uganda e Zimbábue. Uma força de capacetes
azuis foi então enviada ao país.
Eleições livres foram realizadas, mas conflitos
continuaram irrompendo em diversas províncias da RDC. Em 2010, a ONU
endureceu a missão do país, mas abusos de direitos humanos e violência
sexual continuaram a ocorrer.
Um vácuo de poder no leste do país possibilitou
aos grupos rebeldes ameaçar o governo central. A reação das Nações
Unidas foi endurecer ainda mais o mandato da missão de paz e criar as
condições para a organização da Brigada de Intervenção.
Essa unidade especial funcionará durante um ano.
Santos Cruz ainda não tem uma data definida para assumir o comando. Seu
envio depende de uma autorização formal da presidente Dilma Rousseff -
que deve ocorrer em breve, segundo analistas.
O Brasil deve então enviar uma equipe de oficiais das Forças Armadas à RDC para integrar a equipe do general.
Segundo fontes do Itamaraty não há por enquanto
intenção de enviar um contingente de militares combatentes à RDC. Isso
porque a característica principal das tropas que integram a Monusco é
uma forte participação africana.
O Brasil participa de uma série de missões de
paz da ONU. As principais delas ocorrem no Haiti, onde o país tem, além
do comando, uma batalhão com cerca de 1.200 homens e no Líbano, onde o
país mantém um contra-almirante que chefia a Força Tarefa Naval da ONU e
uma fragata com mais de 300 tripulantes.
Fonte: BBC
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