A Rússia anunciou planos ambiciosos para construir sua própria estação espacial, a Estação Orbital Russa (ROS), com lançamento previsto para 2027, marcando uma mudança estratégica após décadas de cooperação na Estação Espacial Internacional (ISS). Este artigo analisa os motivos técnicos e geopolíticos por trás da decisão, explora os detalhes da nova estação e discute os impactos para a exploração espacial global.  

A decisão da Rússia de deixar a ISS após 2024 e desenvolver uma estação orbital própria reflete uma transformação significativa no cenário espacial internacional. A ROS, projetada para operar em uma órbita polar, promete ampliar as capacidades científicas e estratégicas do país, enquanto a saída da ISS simboliza a erosão de parcerias históricas, intensificada por tensões geopolíticas recentes.  

A ISS, operada desde 1998 por EUA, Rússia, Europa, Japão e Canadá, foi um marco de colaboração pós Guerra Fria. A Rússia contribuiu com módulos críticos, como o Zvezda (responsável por propulsão e suporte vital), e o sistema de transporte de tripulação Soyuz. Contudo, conflitos recentes, como as sanções ocidentais após a invasão da Ucrânia em 2022, e disputas técnicas, como vazamentos de ar não resolvidos, minaram aparentemente a cooperação.  

Segundo a Roscosmos, a ROS terá as seguintes especificações :  

  • - Lançamento e Estrutura: Primeiro módulo (Science Power Module) previsto para 2027, com expansão até 2030. A estação operará em órbita polar (inclinação de 96–98°), permitindo cobertura global, incluindo o Ártico, estratégico para monitoramento climático e militar.  
  • - Capacidades Científicas: Foco em microgravidade, biotecnologia e preparação para missões lunares. A órbita polar facilitará observações terrestres não alcançadas pela ISS.  
  • - Autonomia Energética: Painéis solares otimizados e possível uso de energia nuclear para módulos futuros.  
  • - Tripulação Rotativa: Planejada para operar inicialmente com 2–4 cosmonautas, sem presença humana contínua.  

Razões para a Saída da ISS  

 a) Geopolítica e Autonomia  

  • A saída reflete a busca por independência tecnológica em um cenário de sanções e rivalidade com o Ocidente. A Rússia critica a "politização" da ISS e busca evitar dependência de sistemas ocidentais, como os veículos Crew Dragon da SpaceX.  

b) Envelhecimento da ISS e Disputas Técnicas  

  • A ISS enfrenta problemas estruturais, incluindo vazamentos de ar no módulo Zvezda. Enquanto a Rússia atribui os defeitos ao desgaste natural, os EUA sugerem falhas de fabricação (Olhar Digital, 2024). A Rússia também alega que a extensão da vida útil da ISS até 2030 é "arriscada".  

c) Ambições Estratégicas  

  • A ROS alinha-se à visão russa de estabelecer uma presença lunar em parceria com a China, além de reforçar capacidades de vigilância terrestre.  

 Desafios e Implicações  
a) Obstáculos para a ROS  

  • - Financiamento: O orçamento espacial russo sofre com cortes e priorização de gastos militares.  
  • - Tecnologia: Módulos críticos, como o Science Power Module, já enfrentaram atrasos na fase de projeto.  
  • - Isolamento Internacional: A saída da ISS pode limitar parcerias científicas, embora a China possa emergir como aliada.  

b) Impactos na ISS  

  • A retirada dos módulos russos exigirá adaptações urgentes. O segmento americano depende do Zvezda para correções orbitais, e a NASA já investe em sistemas alternativos, como a Northrop Grumman Cygnus.  

c) Nova Corrida Espacial?  

  • A ROS pode intensificar a competição por recursos em órbita baixa, enquanto EUA, Europa e China avançam em projetos próprios.  

Por fim a ROS representa tanto uma resposta à marginalização geopolítica quanto um salto tecnológico para a Rússia. Contudo, seu sucesso dependerá de superar desafios financeiros e técnicos. Para a comunidade internacional, a fragmentação da cooperação espacial sinaliza uma era de multipolaridade, onde rivalidades terrestres se projetam para o cosmos.